sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Carro Design

A indústria é extremamente criativa para batizar segmentos e nomes dos automóveis. A criatividade por sua vez precisa ser tratada com cuidado, ou de uma maneira mais romântica, com carinho. A criatividade é a virtude de ter idéias, pensar o que ninguém pensou. Quando uma pessoa criativa encontra uma pessoa esperta, resulta em inovação. Se você possui grandes idéias, mas não concentra nenhuma ação sobre elas, você será uma pessoa criativa, porém nada inovadora. Pensar não custa nada, porém inovar custa um preço muito elevado pra ser considerado de apenas “caro”. Assim, a indústria está cheia de grandes idéias, porém carente de inovações. Eu separo criatividade de inovação na indústria da seguinte maneira: a criatividade é a arte de colocar a cerejinha em cima do bolo e dizer que isso irá mudar o sabor de todo o confeito e a inovação é a arte de fabricar o bolo. A parte da criatividade cabe aos profissionais do marketing, pois eles possuem o conhecimento para definir quem , onde, como e a que preço o consumidor em potencial irá adquirir um produto qualquer, nesse caso, o carro. Eu os admiro, de verdade. Em outras palavras, eles definem qual o produto que o mercado deseja, ainda indo para uma corrente de pensamento muito controversa, eles definem qual o produto que o mercado deve desejar naquele momento. Entenda o desejo como demanda. Na ciência econômica demanda é a quantidade que as pessoas pretendem adquirir de certo bem ou serviço em um determinado momento, dado um preço e ainda relacionado à utilidade e a satisfação na sua aquisição. São fatores subjetivos. O marketing com a sua criatividade peculiar resolveu simplificar a demanda como sendo a soma do desejo com o poder de compra. Não está errado, pelo contrário. Eu acredito que em dadas situações o mercado cria a sua demanda, pois é nessa hora que a criatividade fala mais alto e claro, os fatores emocionais relacionados à escolha. A inovação muitas vezes passa despercebida ou acaba sendo esquecida, e o que realmente estampa a capa das revistas especializadas e programas (raríssimos) na televisão é o fator criatividade. Quem está alinhado com os novos produtos que estão chegando (ou que já chegaram) ao mercado nacional, poderá verificar que estão surgindo diversas novidades que na verdade são releituras dos modelos existentes. Parafraseando Cazuza em o tempo não pára, “eu vejo um museu com grandes novidades”. Alguns exemplos, a linha Adventure da Fiat ao longo de 11 anos de existência que o mercado aceitou com excelência, sendo que essa ação de mercado é benchmark, trouxe consigo uma única inovação de fato, que foi no ano passado o diferencial com bloqueio “Locker”. É útil? Sim, mas não em um carro com tração 4x2 na dianteira. A criatividade em oferecer uma linha com cara off-road, que transmite robustez (um ponto fraco histórico de todos os veículos da marca Fiat) melhorando a imagem da marca e dos produtos, foi brilhante. Muitas pessoas que não sonhavam em comprar um Fiat (tudo por causa da família 147), se renderam às Palio Weekend Adventure, pioneiras, somadas alguns anos mais tarde à líder Strada Adventure. Sinceramente, a Fiat sempre me assustou, apesar de sempre ser ousada e muitas vezes pioneira em oferecer produtos com mais conteúdo do que a concorrência, mas hoje eu olho para essa linha com muita atenção e até disposição para adquirir um modelo, que seria a Strada Adventure cabine dupla. E por que não compro? Simples, não consigo ver a aplicação prática desse veículo, a não ser simplesmente pelo fator desejo + poder de compra, ou seja, o fator emocional. A jogada de marketing em oferecer um veículo picape pequena com capacidade de levar quatro pessoas não é exclusividade da Fiat, isso foi feito no início da década de 90 com a Ford Pampa, e não se deve confundir essa releitura de pioneirismo como sendo inovação. Paradoxalmente os profissionais do marketing qualificam essas ações pioneiras como inovação, o que ajuda muito nas vendas, talvez pelo fato do termo pioneirismo ser muito ultrapassado. As inovações de hoje, podemos verificar nos veículos de maior valor agregado como faróis de xenônio, luzes de led, diferenciais blocantes, câmbios automáticos e CVTs que contam com dupla embreagem e etc. Em outras palavras, as inovações melhoram a performance dos veículos em seus diversos níveis e são incorporados em um médio prazo à veículos de médio e baixo valor agregado que acabam se tornando atributos padrão em pouco tempo. Essa reflexão me veio à cabeça pelo fato de ter visto a propaganda do KIA Soul, que diz: “tão inovador que não se encaixa em nenhuma categoria” e ainda complementam como sendo “carro design”. Parabéns ao pessoal do marketing da KIA. Parabéns mesmo, pois idealizaram um produto que nem eles sabiam em qual segmento posicionar, os engenheiros materializaram um devaneio (isso é exclusividade da engenharia, não tente fazer isso em casa!!) e o mais impressionante ainda, conseguiram convencer o alto escalão do departamento financeiro e ainda deram a missão impossível de vendas ao departamento comercial para complementar a distribuição e promoção (entenda concessionárias). Na prática, o Soul é a cerejinha do bolo. Não é inovador tampouco pioneiro. Se pegarmos os dados de emplacamentos do Soul de janeiro até hoje (O Soul foi lançado em 2010), temos quase 3.500 unidades, e o pioneiro New Beetle da VW (que está entre nós há 12 anos) vendeu no mesmo período quase 1.300 unidades. Detalhe que a VW tem uma rede gigantesca de 612 concessionárias e a KIA apenas 130. O que explica o melhor desempenho do Soul? Não sei, arrisco aqui a falar que é uma questão hormonal. As mulheres são detalhistas, gostam de câmera de ré que aparece no retrovisor (isso é inovação!!), gostam de espelho do lado do motorista (isso foi graças à elas), gostam de ambientes coloridos, gostam de formas que só elas têm a sensibilidade de entender o que estava passando na cabeça do engenheiro (acredito que seja engenheira). As mulheres representam 45% das vendas de carro 0km (são elas assinando o cheque) e se consideramos a influência que a mulher exerce na hora da compra, esse número salta para 80%. Muita gente ainda não percebeu que elas já estão dominando o mundo. Tá certo que o discurso dos direitos iguais acaba no primeiro pneu furado, mas não tem como negar, elas já dominaram. Na onda do Soul, temos o FIAT 500 o Cooper da MINI e o Smart – que é resultado de uma joint-venture entre a Mercedez Benz e a Swatch (isso, a dos relógios!) que agora são importados oficialmente e estão posicionados no mesmo segmento de carros indefinidos que por sua vez têm uma ampla faixa de preço, que vai dos 50 mil até os 100 mil. Logo chega o Audi A1, que estará no mesmo segmento. É um segmento que parece promissor. O que dá pra falar desse cliente é que é uma pessoa que tem estilo, como se o carro fosse uma extensão do guarda-roupa. A VW não diz que o Beetle é carro design. Nem as outras. Não dizem, mas também não dizem onde estão posicionados, que aqui com a minha criatividade vou chamar de segmento de Ovinis. Eu sei que eles não voam, mas se o pessoal do marketing disser que eles voam mesmo sem sair do chão (isso chega a ser metafísico!!) é plausível essa qualificação. É a arte de colocar a cerejinha em cima do bolo, mesmo que o sabor não mude e tendo plena consciência disso, compramos na expectativa de que seja verdade. Parabéns. Quando não soubermos onde classificar uma coisa, vamos usar a criatividade. Um abraço!

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