Sejam bem-vindos! Este espaço é dedicado aos automóveis. Aqui quero expressar minha opinião a respeito dos mesmos e ainda a minha visão do mercado. Não sou engenheiro, não tenho ligação com nenhuma montadora apesar de desejar isso. Quero contribuir de uma maneira positiva e saudável. Que o que seja escrito aqui sirva de combustível para conversas entre amigos, entusiastas e por que não também em alguma mesa de executivos do setor. Espero que gostem. Um abraço!
sábado, 6 de novembro de 2010
Inversamente Proporcionais
Após um período de recesso, estou de volta, mais sensato do que nunca (segundo a pesquisa que eu mesmo respondi 100% dos entrevistados disseram que eu sou muito sensato e também muito modesto!!). Nesse tempo, pensei no que poderia escrever de construtivo. Na verdade o tempo nos faz pensar em muitas coisas e ainda, adaptarmos a outras. O fator tempo para o mercado de automóveis deve ser considerado um fator muito relevante. Simples, de uma promessa em 2003 o carro flex, hoje é a realidade da quase totalidade dos 3 milhões de carros vendidos no mercado interno. Nesses 7 anos, o que foi mostrado e provado, foi mudança de hábito por parte do consumidor no que diz respeito à escolha e procura por carros flex, fato que essa tecnologia foi estendida à outros veículos, particularmente os mais caros, que de certa forma esse consumidor possui uma menor sensibilidade em relação à variação nos preços em virtude de um poder aquisitivo elevado. Em economia, isso se chama elasticidade-preço. Em outras palavras, consumidores com maior renda, por definição sentem menos os impactos de uma variação a maior dos preços de um bem ou serviço pelo fato do mesmo não representar uma quantidade significativa no total de sua renda. O carro flex mostrou que mesmo o consumidor de renda mais elevada, também quer pagar menos. Aliás, isso é instintivo, se não levarmos em consideração o preço de qualquer bem ou serviço, sempre iremos querer levar mais do que menos (talvez seja por isso que o pecado de algumas pessoas é a gula!!!). Neste post na verdade, não quero falar do carro flex, apenas o utilizei para explicar o fator tempo, mas sim falar sobre carros grandes com motores pequenos (não são grandes carros!!), que a indústria chama carinhosamente de “downsizing”. Em uma tradução livre do inglês, o significado é redução de tamanho, ou ainda, achatamento. A origem do conceito vem da Administração, que a partir da necessidade das empresas em reorganizar seus processos em busca da eficiência e ainda, diminuir a burocracia muito presente em sistemas complexos (entenda aqui grandes empresas). Na prática, o downsizing foi concebido para diminuir os níveis de gestão em processos visando uma maior eficiência das áreas produtivas essenciais, chamadas de core competence (em uma tradução livre, competência essencial). No fim das contas, o downsizing virou sinônimo de corte de custos e de pessoas, fugindo do princípio para o qual foi criado. Aplicando isso aos carros, temos que levar em consideração alguns fatores, que nos quais seriam o mercado em questão, seus aspectos sociais, culturais e econômicos. Os europeus por sua vez, no que diz respeito à organização da sociedade, possuem características muito diferentes de nós brasileiros, no que diz respeito à conscientização e sobre o desperdício de uma maneira geral. Acredito que isso seja pelo fato do povo europeu ter sofrido muitas perdas civis e financeiras em geral por causas das guerras e com isso a habilidade em lidar com a escassez em seus diversos níveis, fez com que fosse refletido no seu estilo de vida. No fim da década de 80, o cantor britânico líder do então The Police, Sting, veio ao Brasil e conheceu uns índios da floresta Amazônica e adepto à causa ambientalista, em 1989 ele fundou a Rainforest Foundation. O que o Brasil e o resto do mundo (países em desenvolvimento e principalmente Estados Unidos) fazem e falam hoje sobre aquecimento global, os europeus de certa maneira já consideravam essa possibilidade tempos atrás. Talvez por estarem localizados em uma região que não possui uma riqueza de recursos naturais como o Brasil e sofrer conseqüências por causa da escassez os fazem mais conscientes. Chamo atenção a isso pelo fato do downsizing praticado nos veículos atingem diversos níveis e também modelos. Seja pela busca de combustíveis alternativos, pela eficiência energética e eficiência ambiental (os motores a diesel lá são Euro VI e aqui estamos indo para o equivalente ao Euro IV). O que quero dizer é que para o europeu em geral, o interesse coletivo vem antes do interesse individual, dessa forma abrir mão de algo em prol de uma causa faz parte de sua cultura. Aqui no Brasil a estória é outra. Vou utilizar como exemplo a FIAT (italiana!!) que há pelo menos 2 anos oferece na linha Linea e Punto dois motores a gasolina downsized nas versões topo de linha ambos 1.4 turbo, chamados de T-Jet. O resultado disso são vendas raquíticas comparadas aos modelos de outra motorização. O Punto oferece nos modelos mais básicos também um motor 1.4 flex, porém é uma oferta adequada ao público e cobrando um preço justo por essa opção. O esportivo 1.4 T-Jet por sua vez, posicionado na faixa dos R$ 65.000,00 entrega toda a roupagem esportiva e mais conteúdo, deveria oferecer um motor de maior cilindrada. Não critico o desempenho do motor, nem sua construção, pois quem o possui e também dirigiu, elogia muito. Pela potência que ele entrega (152cv) é muito adequado para o tamanho e peso do carro, deixando-o muito ágil. O que quero dizer é que na hierarquia dos modelos, sempre foi apresentado no nosso mercado que os carros com maior conteúdo e maior motor, são posicionados e considerados os topos de linha. Tradicionalmente, a FIAT nunca teve grande expressão no segmento de sedãs médio e médio grandes. Seus carros nessa configuração (Tempra e Marea) sempre tiveram vida curta se comparados com os seus concorrentes que duraram bem mais. Apesar de a FIAT ser a proprietária da Alfa Romeo, que produziu sedãs (Alfa 155, 156, 164 e 166) com muito estilo e conteúdo e muito bons (apesar de muitas pessoas falarem o contrário!), poderia ter utilizado essa expertise para desenvolver e ser mais expressiva nesse segmento com veículos com a marca FIAT. Fato é que até a Alfa parou de produzir esses sedãs, sendo que atualmente só oferece o modelo médio Alfa 159. Assim, o Linea T-Jet que custa R$ 73.000,00 possui esse mesmo motor, onde ele concorre com Honda Civic, Toyota Corolla, Ford Focus e todos possuem motores de cilindrada maior, entre 1.8 e 2.0. A potência é semelhante aos dos concorrentes, sendo que perde apenas para o Corolla 2.0 que tem 153cv, que na verdade essa diferença não se percebe. Se pegarmos um comparativo das vendas em 2010 até setembro, Punto e Linea respectivamente nas suas versões T-Jet com as versões inferiores com motores de maior cilindrada, temos 97 e 68 unidades contra 26 mil e 8 mil. A diferença é muito grande. Claro que o fator preço influencia, porém considero aqui as versões “quase top” que possuem preços próximos e se tratando de um modelo topo de linha, o desempenho é muito baixo, uma vez que o mercado hoje é essencialmente flex, e a opção é gasolina com cilindrada pequena. Tanto Tempra Turbo/Stile quanto Marea Turbo também deixaram de ser fabricados por baixo desempenho de vendas, mas a época era outra, o mercado não tinha e nem vislumbrava o motor flex e ainda a gasolina estava em franca ascensão, inviabilizando motores de alto desempenho com alto consumo. Por questões culturais, o baixo desempenho de vendas desses modelos aqui no Brasil pode ser explicado. Questiono aqui ainda, se tanto álcool quanto gasolina custassem o mesmo e ainda tivessem o mesmo rendimento energético (é sabido que álcool possui uma eficiência de 20-30% menor do que a gasolina, explicando um maior consumo dos motores à álcool) se o álcool realmente seria escolhido voluntariamente pela questão ambiental. Na Alemanha, até os carros da Mercedes-Benz estão recebendo motores menores (1.6) que tradicionalmente sempre possuíram motores de maior cilindrada. A questão ambiental é importante com certeza e acredito também que o fato de se produzir a mesma eficiência em performance (torque, potência) de motores maiores com motores menores refletindo em um consumo menor, todos têm a ganhar. Um exemplo disso é a Amarok que produz os mesmos 163cv no diesel com um motor 2.0 (biturbo) contra um 3.0 da Toyota Hilux, 3.2 da Mitsubishi L200 Triton e um 2.5 da Nissan Frontier (a picape média com maior potência no diesel, 172cv). A Ford substituiu o motor diesel na linha 2007 da picape grande F-250, de um 4.2 MWM 6 cilindros com 182cv passou para um 3.9 Cummins 4 cilindros e 200cv. Possivel é, resta saber se o nosso mercado vai assimilar a idéia do downsizing para que a indústria ofereça o produto adequado. A GM tem um protótipo de motor 1.0 turbo para uma Meriva, sendo que não existe previsão para que seja produzido em série, é apenas para mostrar os benefícios do downsizing. A VW fez com o Gol e Parati o mesmo, sendo que durou pouco, foi retirado do mercado em 2003. Não levanto a bandeira de que todos os carros necessitam de motores menores, mas sim motores adequados ao tamanho, porte e proposta de cada carro, buscando eficiência. Comparando, foi feito um teste com um Toyota Prius Híbrido (este modelo utiliza um motor 1.5 a combustão e outro elétrico), um veículo concebido para ser econômico e um BMW M3 (4.0 V8) concebido para ser veloz, onde a proposta era andar com o Prius o mais rápido possível e o BMW tinha a tarefa de apenas acompanhá-lo. No final, o BMW fez 8,2km/l contra 7,2km/l do Prius. Na prática, o motor que seria mais ineficiente se mostrou mais eficiente em virtude de estar mais adequado ao porte, a proposta do carro e ao estilo de direção, sendo que não importa o carro que você dirige, mas sim como você dirige. Em outras palavras, não mude de carro, mas sim seu modo de dirigir. Assim, acredito que a eficiência pode ser alcançada independente do tamanho do motor, desde que alguns princípios de engenharia e da física sejam respeitados, pois não existe mágica. Seria como exigir que um Fórmula 1 tenha o mesmo consumo que um carro 1.0 (apesar da Fórmula 1 buscar o menor consumo de combustível com o maior rendimento possível). Como entusiasta de automóveis, admiro grandes carros com seus grandes motores, muito diferente de carros grandes com motores grandes. Que o tempo mostre qual proposta é a melhor, seja a do downsizing ou a do motor adequado para cada proposta de automóvel. O histórico de modelos que tentaram introduzir essa prática no Brasil mostrou que não era o momento. Mas com o tempo as coisas mudam, inclusive em um futuro próximo estaremos assistindo aos domingos a Formula 1 ...1.0. Loucura? Não duvide da engenharia. Um abraço!
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